Seja você mesmo

Quando reconhecemos o valor de quem somos e não nos importamos com o que vão pensar sobre nós, caminhamos para viver de forma mais autêntica, livre e feliz

Gosto de observar como as crianças pequenininhas são plenas dentro delas mesmas. Se permitem dar birras, são sinceras, naturais, sabem o que não gostam. Elas chegam por aqui ainda libertas de um olhar julgador que nós, adultos, já interiorizamos. Esses julgamentos (nossos e dos outros) que vamos carregando ao longo da vida vão fazendo com que a gente se enxergue de um jeito meio distorcido. Por isso, o meu convite com essas palavras que seguem é para que possamos investigar o que é que nos distancia de quem a gente é. E, mais do do que isso, como é possível ver o valor em ser quem somos, reconhecendo nossas vontades e expressando isso de um jeito livre, alegre e pleno.

A farsa da inadequação
Li um livro que me ajudou muito a encontrar respostas: A Vida Ama Você (Sextante), de Robert Holden e Louise Hay.  Os autores falam, inclusive, sobre essa essência pura da infância, que perdemos aos poucos. “Os bebês são pura consciência, não há noção do Eu. Não têm autoimagem nem construíram uma persona ou uma máscara. Ainda não têm neuroses e estão plenos da bênção original do espírito. Eles se identificam apenas com a sua face original, como os budistas chamam — a face da alma”, escreve Robert. A questão é que, ao longo da nossa jornada, muitos julgamentos e críticas começam a nos impedir de ver essa nossa face original. Aos poucos, o amor vai sendo substituído por um sentimento de separação, de inadequação, de medo de não agradar.

Mas essa beleza de ser quem somos ainda está em nós, mesmo que escondida. “Podemos vê-la novamente no momento em que paramos de nos julgar, mas essas críticas agora são um hábito com o qual nos identificamos. Nós nos convencemos de que julgar equivale a enxergar, mas na verdade é o oposto. Você só passa a enxergar de verdade quando para de julgar”, escrevem.

E aí, nosso valor vai sendo colocado em xeque e surge aquele sentimento que a gente tanto conhece: nunca ser bom o bastante. Bonito o bastante, inteligente o bastante, criativo o bastante… Nunca somos bons o suficiente, o que é uma grande mentira, mas a gente não sabe. E expor quem a gente é parece não ser algo muito seguro ou promissor, seja pelo nosso cabelo, corpo, ideias, jeito de estar no mundo.

Vamos criando máscaras para agradar, forjamos um jeito de ser e não acreditamos que a nossa essência é segura de ser verdadeiramente amada. O curioso é que agimos assim muitas vezes sem nem ter consciência disso. “Esse medo essencial — ‘eu não mereço ser amado’ — não passa de uma história que só parece real porque nos identificamos com ela. Isso nos impede de gostar da nossa própria companhia e nos afasta de nós mesmos”, escrevem Robert e Louise.

O medo de não ser bom
o bastante esconde um receio
inconsciente de não merecer
ser amado. Isso nos impede de gostar
da nossa própria companhia
e nos afasta de nós mesmos

O que os autores me dizem através dessas palavras é que o mundo é muito mais o que nós enxergamos dele. As coisas não são como são, mas como nós somos, como nos identificamos. O problema disso é que nossas percepções podem fazer da vida e dos relacionamentos algo difícil de desfrutar com plenitude. E aí a vida fica limitada.

Mas é possível criarmos outra realidade para estarmos. Procurei a terapeuta e instrutora de thetahealing — uma terapia de cura energética através do acesso às ondas theta — Sandra Chander. O que ela diz faz muito sentido. “Todos temos crenças, que é tudo aquilo que tomamos como verdade em algum momento. Algo que não questionamos, não temos plena consciência. E esse nosso sistema de crenças são os óculos com os quais vemos o mundo”, diz.

Assim, se acreditamos que sermos nós mesmos é algo perigoso, que não vale a pena, ou que pode não ser bem aceito, passamos a viver de um modo limitado. Por isso, trazer para a consciência essas ideias que tomamos como verdade e permitir que elas vão embora é um caminho para nos aproximarmos de nós mesmos. “Sem perceber, uma pessoa pode acreditar que, se for diferente, vai ser excluída, que ser diferente é ruim. Outras podem acreditar que se forem elas mesmas não terão o amor de ninguém. Também há quem busque um padrão externo e impossível de perfeição, querendo ser quem não é, acreditando que, só assim, será querido. Só que, quando deixamos de ser quem somos, nunca estamos inteiros nas relações. Caímos numa necessidade de aceitação que aprisiona”, me diz Sandra.

Devemos mudar nosso padrão
de crença e saber que ser quem
somos é seguro, e é o único caminho
para viver de forma plena e feliz

 

Libertando-se de expectativas
Mas como é possível se libertar das opiniões e iluminar o poder interior que temos para ser quem somos, independentemente do que vão pensar?  O livro A Coragem de Não Agradar (Sextante), escrito pelos japoneses Ichiro Kishimi e Fumitake Koga, me trouxe reflexões valiosas sobre esse desejo de corresponder às expectativas.

Fui conversar com Ichiro, um dos autores, e ele me diz que essa busca por reconhecimento, em parte, vem da influência de uma educação baseada em recompensas e punições. Ou seja, se uma ação só tem valor quando é bem-vista por alguém, logo estaremos sempre reféns do julgamento alheio em busca de aprovação. “Nos falta coragem para sermos normais. Nós tendemos a pensar que não seremos reconhecidos pelos outros a menos que sejamos especiais. Mas, se vivermos em constante necessidade de reconhecimento, cairemos numa dependência do outro, vivendo a vida deles e jogando fora a nossa própria vida”, me disse Ichiro. Uau. É tão isso!

Se vivermos em constante necessidade
de reconhecimento, cairemos numa
dependência do outro, vivendo a vida
deles e jogando fora a nossa própria vida

Ele também diz que talvez pareça mais fácil agradar aos outros, porque, assim, transferimos nossa responsabilidade sobre como guiar nossa vida, como no caso de alguém que sempre segue o caminho traçado pelos pais. “A falta de coragem para não temer ser detestado é o nosso maior obstáculo. Mas podemos ser como somos, independentemente de como nos julgam. Também não podemos ter medo de errar”, observa Ichiro.

Entendo que precisamos aceitar a velha máxima de que não dá para agradar todo mundo. Essa é uma rota impossível, que nos tira do nosso verdadeiro caminho. Porque o que vai importar no final é como decidimos levar a nossa própria vida. O que Ichiro Kishimi e Fumitake Koga sugerem é que saibamos “separar as tarefas nossas e as dos outros”. Isso implica entender que o que o outro pensa ou espera de nós e como vai lidar com isso é uma tarefa dele, e não nossa. E que isso não nos define. Não há como resolver as tarefas de todo mundo ao mesmo tempo, só as nossas. Ufa.

A gente precisa entender, de vez,
que é impossível agradar a todos.
É uma rota que nos tira
do nosso verdadeiro caminho


Reconectando com quem somos
A questão é que, mergulhados nesse caldo de autocríticas, de julgamentos, de não nos sentirmos bons o bastante e de uma cultura que parece aceitar só o que está dentro dos padrões dualistas de certo e errado, pode ficar até difícil saber o que é nosso mesmo. Quais são nossos gostos, opiniões e verdades? Um caminho que a coach Marizete da Silva me sugere é que questionemos a nós mesmos. Uma escolha pragmática baseada em perguntas constantes:

* “Quando você se sente fragilizado, ou deprimido, ou desencaixado, como seria perguntar: ‘Quem eu estou sendo aqui?
* Se eu estivesse sendo eu, o que eu escolheria? Onde estaria e com quem?’.

“As perguntas empoderam, abrem espaço para a consciência e criam possibilidades”, diz. Também podemos abrir um caderno e nele listar o que gostamos ou não e quais valores estão ligados a nós. Parecem perguntas simples, mas trazem um contato com a gente que muitas vezes estava esquecido.

Seguir rumo a quem você é de verdade é fazer essa escolha de não agradar o tempo todo. E estar bem com isso. É aceitar que os outros lidem com suas tarefas sobre o que esperavam de você. É entender que, apesar das críticas, a sensação de fazer e de ser o que lhe parece certo é muito mais saborosa. Nem todo mundo precisa entender, e tudo bem.

“Quanto mais presentes e conscientes de que nossas escolhas e pontos de vista criam a nossa realidade, mais podemos escolher ser nós mesmos, independentemente dos julgamentos. Tudo é na verdade energia — até o julgamento —, se movendo e criando o ponto de vista da separação, de que estamos errados quando não somos parecidos ou seguimos os padrões da dita normalidade”, me diz Marizete. “O julgamento é só uma mentira que você comprou como verdade absoluta para deixar de ser quem você é.”

Através dessa autoinvestigação do que gostamos, do rumo que queremos seguir, do que é nosso versus o que é do mundo, podemos nos surpreender ao largar uma bagagem pesada e começar a viver com a leveza do nosso espírito em pequenas ou grandes atitudes. É muitas vezes trocar o carro pela bicicleta, é questionar ideias de sucesso e trabalho (imagine largar uma posição importante que nada tem a ver com você, mas que para os outros parece o máximo?), é simplesmente ir à praia de biquíni apesar das celulites ou decidir não pintar mais o cabelo. E entender que as críticas que chegarão terão mais a ver com a história que cada um leva consigo. Quando fazemos uma escolha diferente, jogamos um holofote sobre o outro, e isso pode ser incômodo, porque o faz ver que é possível viver de outra forma.

Deixando pra trás o medo
do julgamento, podemos
começar a viver com a leveza
do nosso espírito, seja nas
pequenas ou grandes atitudes da vida

O mais bonito é que, quanto mais assumimos quem somos, menos percebemos os julgamentos do outro. “Quando a pessoa para de se criticar e assume quem ela é, a opinião de fora deixa de impactar. Se não tem mais vítima, não tem mais algoz. E a gente deixa até de atrair pessoas que nos julgam tanto”, explica Sandra.

Começo a refletir sobre como a vida seria sem graça se pessoas incríveis que admiramos pela forma como se colocam no mundo tivessem deixado de expressar quem elas são pelo medo do julgamento. Quantos jeitos novos de ver a vida seriam desperdiçados? Um dos meus pintores preferidos, o catalão Salvador Dalí, conhecido pela sua arte surrealista  — e também pelo seu bigode peculiar e suas expressões engraçadas — tem uma frase que diz: “Todas as manhãs, quando acordo, experimento um prazer supremo: o de ser Salvador Dalí. Então pergunto a mim mesmo, maravilhado, que coisa prodigiosa esse tal de Salvador Dalí vai fazer hoje”.

Eu não sou Salvador Dalí, nem você. Mas, todos os dias, podemos experimentar esse prazer supremo de ser quem somos. Qual coisa prodigiosa você vai fazer hoje?